(em torno das imagens de Philippe Enrico)

    O lugar único - a utopia. Horizonte dos horizontes, onde a migração da matéria dos objetos e dos sentidos acontecem. Aparecimentos e desaparecimentos, mas a persistência da Lei "changer toujours de point de vue".
    De imagens sem formas ou intensamente tácteis, há horizontes que o olho toca e a mão torna visível.
    Horizontes, Letras, Falsas paisagens, Utopias: disjunção de fragmentos. Frações de cor, da pintura que o tempo fez, na travessia do ver e o acaso tingiu, revelando imagens.
  Fotogramas que se movimentam para o passante espectador. Pintura, escultura, poesia se friccionam. Como um palimpsesto em que as camadas armam o olho e, estrategicamente, enganam: a Asa - uma cidade desenhada; a Tinta - resto de paisagem falseada pelo olhar; Pneu: rastro de ficção. Suspense como substância de suspensão. O signo se mostra no significante que flutua; as utopias, as paisagens, as letras suspensas no espaço. Fluidez de partículas.
  O olhar inquieto dobra/desdobra as camadas da matéria. Gestos do pensamento do artista. A letra tridimensiona a utopia em todas as línguas e a desloca sem cessar. Os pontos de vista ou da vista multiplicam-se, multiplicando os sentidos.
    A ação do tempo no objeto se dá a ver pelo desbotamento. São marcas impregnando o papel, a paisagem, a letra. As sombras do passado da matéria esculpem fantasmas. Levantar camada por camada, descobrir milhares de películas, onde a tela se constrói:entrelaçamentos. Tecidos abissais onde as superficies em movimento devêm horizontes, letras, falsas paisagens e utopias.

Vera Casa Nova